60 Anos de Palomares

Palomares: Bombas de Hidrogênio Perdidas e Suas Consequências

 
Exatamente 60 anos atrás, em 17 de janeiro de 1966, um dos piores acidentes nucleares da Guerra Fria ocorreu no sul da Espanha. Um avião-tanque americano colidiu com um bombardeiro B-52 que carregava quatro bombas de hidrogênio. Os aviões explodiram e caíram com sua carga perigosa sobre a vila costeira de Palomares, na Andaluzia. O sistema do paraquedas falhou em duas das quatro bombas. Elas se estilhaçaram com o impacto, contaminando o ar e o solo ao redor de Palomares com plutônio e urânio. A quarta bomba caiu no Mar Mediterrâneo e foi descoberta apenas 80 dias depois.
 
Uma conversa com o escritor e documentarista espanhol José Herrera Plaza, de Almería. Entrevista por Norbert Suchanek
 
Onde você estava em janeiro de 1966, quando as bombas de hidrogênio caíram do céu?
 
Eu estava começando o ensino secundário no colégio cristão La Salle, em Almería, a cerca de 90 quilômetros de Palomares. Como a maioria das pessoas na Andaluzia, eu não fazia ideia das bombas de hidrogênio que pairavam sobre nossas cabeças.
 
Quando e por que você começou sua pesquisa sobre o acidente de Palomares e a tornou seu foco principal?
 
Em 13 de janeiro de 1986, participei de uma reunião com os moradores de Palomares. Faltavam três dias para o 20º aniversário do acidente, e seus pedidos de indenização por danos à saúde estavam prestes a expirar. Eu queria fazer um documentário sobre essa história pouco conhecida, quase inacreditável, mas, naquela época, todas as fontes para fazer o documentário eram sigilosas. Esperei 21 anos, reunindo todos os documentos disponíveis, até finalmente conseguir concluir o documentário "Operação Flecha Quebrada: O Acidente Nuclear de Palomares".
 
O que significa "Operação Flecha Quebrada"?
 
"Flecha Quebrada" é um codinome usado pelos militares dos EUA. Refere-se a um evento acidental, envolvendo armas nucleares, como uma explosão nuclear acidental ou inexplicável, ou a perda ou roubo de bombas nucleares.
 
Como as autoridades locais reagiram? Elas tinham conhecimento da ameaça do plutônio?
 
As autoridades locais responderam com o protocolo padrão para acidentes aéreos, sem saber por uns dias do envolvimento de armas nucleares ou da contaminação de uma grande área.
 
Como e quando o governo em Madri reagiu?
 
As autoridades espanholas tomaram conhecimento do acidente quase imediatamente, graças aos alertas nos canais de emergência, enviados por um helicóptero da Marinha Espanhola. O conhecimento de que o avião transportava quatro bombas de hidrogênio foi no mesmo dia, graças ao embaixador dos EUA. Mas ambos os governos envolvidos mantiveram silêncio sobre o assunto até que, três dias depois, a mídia divulgou a informação ao público.
 
Como foi possível que a mídia noticiasse isso tão rapidamente durante a ditadura de Franco?
 
O jornalista hispano-americano da United Press International, André del Amo, esteve em Palomares dois dias após o acidente e descobriu o envolvimento de armas nucleares e monitoramento radiológico do solo para medir a radioatividade. No dia seguinte, a notícia apareceu nos principais veículos de comunicação do mundo. A ditadura reagiu de acordo com sua natureza intrínseca: confiscando jornais em bancas de jornal ou nos aeroportos de Madri e Barcelona, quando chegavam em voos internacionais. Os habitantes de Palomares e do resto da Espanha tomaram conhecimento da notícia porque, para evitar a forte censura dos meios de comunicação, era comum ouvir os boletins de rádio de ondas curtas em espanhol da Rádio Paris, da BBC e, principalmente, da Rádio Espanha Independente "La Pirenaica", do Partido Comunista da Espanha, que transmitia de Bucareste (Romênia).
 
Quais foram as consequências ambientais diretas da quebra das bombas de plutônio? Havia risco de uma explosão nuclear?
 
A explosão de duas bombas Mk-28 FI, cada uma 68 vezes mais potente do que a lançada sobre Hiroshima, contaminou uma área de 635 hectares com combustível físsil: aproximadamente dez quilogramas de plutônio-239 e -241, bem como um pouco mais de dez quilogramas de urânio-235 e urânio empobrecido-238. Embora o risco de uma detonação nuclear acidental fosse muito pequeno, ele existia. Apesar da catástrofe, essas bombas estavam entre as mais avançadas tecnologicamente do arsenal americano. 
 
Seus sistemas de segurança eram bastante eficientes, com exceção do explosivo convencional, que era frágil e sensível a impactos. Graças a esse acidente e a um similar dois anos depois, em Thule, na Groenlândia, decidiu-se substituir esse explosivo por um insensível a impactos e fogo.
 
A população local foi alertada sobre a contaminação por plutônio e o consumo de alimentos potencialmente contaminados, como tomates?
 
Os habitantes de Palomares foram continuamente e perversamente mal informados, e assim permaneceram durante cinquenta anos, tanto na ditadura quanto na democracia. Toda a consciência de sua precária situação foi graças às estações proibidas de ondas curtas, como a Rádio España Independente "La Pirenaica", a BBC e a Rádio Paris, com a sua programação noturna em espanhol. 
 
O apoio empático de uma das figuras mais importantes da nobreza espanhola, a Duquesa de Medina Sidônio, contribuiu para informá-los sobre sua situação e direitos - e por isso, a ditadura fascista de Franco a colocou na prisão.
 
Existem dados ou estimativas sobre o número de pessoas que adoeceram ou morreram em consequência da contaminação por plutônio radioativo?
 
Não, porque nunca permitiram que fosse realizado um estudo epidemiológico rigoroso. Quando algumas pessoas independentes tentaram, todas tiveram problemas. Ao mesmo tempo, a história oficial, criada e mantida pelos dois governos, declarou que nunca houve doenças tumorais causadas pelo plutônio. Palomares é uma área de sacrifício ambiental, com riscos significativos para a saúde dos seus habitantes. Mas não é uma exceção ao resto do mundo: minoria invisível, consequências invisíveis. 
 
O acidente nuclear afetou a próspera indústria turística da região?
 
Em 1966, o turismo estava em plena expansão em outras partes da Espanha, mas não nesta região. A província de Almería era, na época, muito pobre e isolada pela comunicação precária. 
 
No entanto, o ditador tinha receio de que o turismo no resto do país pudesse ser afetado, devido à imprensa sensacionalista, principalmente a inglesa e parte dos jornais italianos. A pior manchete foi publicada no jornal do jovem Rupert Murdoch, na Austrália. Este jornal noticiou que havia ocorrido uma detonação nuclear, que milhares de pessoas estavam fugindo e que toda a costa mediterrânea espanhola estava contaminada. Este foi o motivo do banho na praia de Palomares do Ministro da Informação espanhol e do embaixador americano.
 
Os EUA realizaram uma operação de busca em larga escala para localizar as bombas perdidas e descontaminar os locais em Palomares. Como a população local reagiu?
 
A principal prioridade do grande contingente militar era a busca por terra e mar pela bomba perdida. A busca terrestre durou mais de 45 dias, e no mar foram 80 dias. A segunda prioridade foi recuperar a caixa-preta e os materiais confidenciais do B-52 (rádios, diário de bordo, etc.). A terceira foi recolher mais de 125 toneladas de destroços do bombardeiro e do avião-tanque e jogá-los no Mar Mediterrâneo, ao largo da costa de Palomares.  Por último, foi realizada uma descontaminação simbólica para a opinião pública internacional. 
 
Após o acidente, algumas pessoas provavelmente foram afetadas por transtorno de estresse pós-traumático e, posteriormente, uma paranoia coletiva tomou conta da cidade, exacerbada pelas contradições entre as autoridades dos dois países. A população local foi repentinamente lançada na era atômica, tentando compreender uma nova palavra em seu vocabulário: radioatividade.
 
Os militares conseguiram remover todo o plutônio da região?
 
Conseguiram remover todo o plutônio que eles queriam. Após longas e assimétricas negociações entre o gigante hegemônico e a ditadura franquista, eles concordaram em descontaminar a área e retornar o plutônio ao seu país de origem. No entanto, transportaram apenas 650 metros cúbicos de solo contaminado e 350 metros cúbicos da plantação contaminada. Não fizeram nada do acordado, porque esses 1000 metros cúbicos de lixo radioativo não era o mais radioativo. Estima-se que menos de um por cento do plutônio, pouco menos de 100 gramas, tenha regressado para os EUA, em 4.810 barris. O restante da terra contaminada foi arada para enterrar o plutônio em campos agrícolas, a 30 centímetros de profundidade. Além disso, dois poços secretos foram descobertos 40 anos depois, com 4.000 metros cúbicos de lixo radioativo enterrado. 
 
O que fizeram com o material contaminado que foi para os Estados Unidos? Foi armazenado em um depósito especial de resíduos nucleares? 
 
Dois barris foram enviados para o Laboratório Nacional de Los Alamos, para experimentos em usinas nucleares. Outros 4.808 barris de material contaminado foram transportados para o Complexo Nuclear de Savannah River, da Comissão de Energia Atômica dos Estados Unidos (AEC), em Aiken, na Carolina do Sul, e enterrados a uma profundidade de 6 metros. Esse gesto simbólico foi acompanhado de uma ampla campanha publicitária global. No entanto, 99 por cento do plutônio e urânio, escondidos em Palomares, foram ocultados da opinião pública, sobretudo aos habitantes e agricultores que trabalhavam nessas terras radioativas. 
 
A USAF (Força Aérea dos EUA) e o governo espanhol disseram que a terra havia sido perfeitamente descontaminada e que não existia perigo. Entretanto, a Comissão de Energia Atômica dos EUA (AEC) e a Junta de Energia Nuclear Espanhola (JEN) ​​aproveitaram a situação para implementar um programa secreto de experiência com humanos. O objetivo era investigar a absorção e o armazenamento do plutônio e do urânio no corpo humano, através de um número representativo de indivíduos, da população potencialmente exposta à inalação do aerossol de óxido de plutônio. Este foi o programa secreto denominado "Projeto Indalo", que foi realizado sem o consentimento da população local.
 
Qual é a situação atual em Palomares? Ainda existem áreas contaminadas e riscos radioativos na região?
 
Apesar das declarações da Espanha e dos EUA de que não havia perigo para os agricultores e suas famílias, em 1966, ao arar a terra com plutônio, foi gerado inúmeros aerossóis que resuspenderam a radioatividade. Durante 40 anos, os moradores de Palomares estiveram expostos a radionuclídeos. Somente em 2006, as primeiras medidas de radioproteção para seres humanos foram adotadas, restringindo o uso agrícola, o acesso e trânsito nas terras contaminadas, por meio do cercamento e sinalização de uma área de 400.000 m².
 
Agora, em 2026, sessenta anos depois, ainda esperamos que o governo central, em Madri, realize a descontaminação. Nunca consideraram isso como uma prioridade, embora haja evidências documentadas de que mais de 210 moradores apresentaram sintomas de contaminação interna nos pulmões. O número real de pessoas contaminadas é desconhecido. As elites políticas, suas famílias e o poder central vivem a 525 quilômetros de distância, em Madri.
 
Por que, afinal, um bombardeiro B-52 dos EUA sobrevoou o sul da Espanha, durante a Guerra Fria, carregando bombas nucleares?
 
Desde 18 de janeiro de 1961, quando a Operação „Chrome Dome“ começou, entre quatro e seis bombardeiros estratégicos sobrevoavam a Espanha diariamente, 365 dias por ano, em voos de ida e volta. Durante a crise dos mísseis, 42 bombardeiros armados para destruição em massa sobrevoavam a Espanha todos os dias. Esses B-52 partiam da costa leste dos Estados Unidos, atravessavam o espaço aéreo espanhol, aproximavam-se do sul da Itália e retornavam às suas bases, através da Espanha novamente. Cada um carregava quatro bombas termonucleares. Se recebessem ordens de ataque, poderiam penetrar e atingir seus alvos em uma ou duas horas, no máximo, dependendo se o alvo estivesse nos países do Pacto de Varsóvia ou na URSS. 
 
Durante cinco anos, mais de 17.000 bombardeiros sobrevoaram a Espanha e reabasteceram 26.000 vezes. Nenhum outro país na Europa permitiu essas manobras tão perigosas em seu espaço aéreo. Quase 35.000 bombas de hidrogênio passaram sobre nossas cabeças. A colisão sobre Palomares e, dois anos depois, sobre Thule, na Gronelândia, ocorreu porque a lei da probabilidade entrou em ação.
 
Como você está comemorando o 60º aniversário desse desastre aparentemente interminável de Palomares?
 
Estou planejando uma exposição fotográfica e um debate na Biblioteca Villaespesa, em Almería, sobre o tema "Palomares – 60 anos de fracasso governamental". Também pretendo lançar meu novo livro no final de janeiro. O título é "O Ano das Bombas: Histórias de Palomares“.  Ele reúne os depoimentos de 27 espanhóis e americanos que participaram involuntariamente no acidente de Palomares. O livro é escrito no subgênero da narrativa documental, como "Vozes de Chernobyl", de Svetlana Alekseyevich, obra à qual presto homenagem. Trata-se de evitar  que o desastre caia no squecimento. A história de Palomares ainda não terminou. Ela continua a ser escrita.
 
Obrigado!
 

A Bomba de Hidrogênio em Palomares

A bomba de hidrogênio é essencialmente uma bomba dentro de uma bomba que está dentro de uma outra bomba, baseada na fusão dos isótopos de hidrogênio deutério e trítio, juntamente com lítio, para formar hélio. Essa fusão nuclear requer pressão extrema e altas temperaturas de aproximadamente 100 milhões de graus. Para gerar essas temperaturas, a bomba de hidrogênio, como a que caiu em Palomares, utiliza uma bomba atômica como detonador. Essa bomba, baseada na fissão nuclear de plutônio e urânio, é então detonada por um explosivo químico convencional.

 

José Herrera Plaza


Nascido na Andaluzia, em 1955, José Herrera Plaza é diretor de fotografia, fotojornalista, escritor e documentarista. Desde 1986, pesquisa o desastre radioativo de Palomares e escreveu a obra seminal "O Acidente Nuclear de Palomares: Consequências (1966–2016)". É também coautor de "Silêncio e Deslealdade: O Acidente Militar de Palomares, da Guerra Fria aos Dias Atuais" e "Operação Flecha Quebrada: O Acidente Nuclear de Palomares", tendo dirigido o documentário homônimo, lançado em 2007. Em 2019, recebeu o „Prêmio Honorário pelo conjunto de sua obra“ do International Uranium Film Festival.

Norbert Suchanek 

 
Norbert Suchanek é jornalista político, ambiental e científico há cerca de 40 anos. Como co-diretor e fundador do International Uranium Film Festival ele recebeu, em 2025, em Nova York, o prestigioso „Nuclear-Free Future Award“ na categoria educação.
 
 

Filmes sobre Palomares

 
 
Foto: José Herrera Plaza (à esquerda) com Jaime García Parra em 2022 na praia de Ipanema – como parte da programação paralela do International Uranium Film Festival do Rio.
 
 
 
 

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